04

Nov 2007

A Tília

Mais um dia.

Tílio, o aposentado, estava em seu posto de sempre, na rua, só observando as pessoas: suas atitudes, roupas, gestos, conversas, olhares; de algumas chegava a criar teses sobre suas personalidades, sobre suas almas e valores. Tentava desvendar os mistérios da alma humana.

Tinha certo repúdio por árvores e animais, mas ficava numa alameda cheia de tílias, irritava-se com suas folhas secas caindo a seus pés, era pior quando o vento as fazia roçar em seu corpo durante a queda! Não suportava quando isso acontecia, e praguejava tanto!

Era um desses velhos ranzinzas, com muito assunto mas realmente pouquíssima disposição para conversar. Raramente chamava alguém para conversar e normalmente era para julgar alguém, dar conselhos que não lhe foram pedidos, condenar atitudes… quantas vezes não quis dar um esporro em alguma criança traquinas! Mas seu chamado sempre foi ignorado, quando muito apenas lhe dirigiam um olhar apressado e logo desviavam, pisando nas folhas secas de tília, com aquele mais detestável crec-crec. Assim estava sempre sozinho, e mesmo assim estava ali para julgar qualquer transeunte sob chuva ou sol, no frio e no calor.

Não tinha noção de tempo, perdia-se nele entretido em suas observações sobre os outros. Não tinha amigos ou família, não tinha posses e há muito não via algum rosto familiar de sua época sociável. Parecia fazer questão de não conhecer gente nova. Era tão duro consigo mesmo, não se permitia pensamentos depravados, não se permitia desviar a atenção do julgamento dos outros – há! Os outros: seus eternos réus.

Mas a eternidade se manifesta fora do tempo e não era neste campo que Tílio observava. Seu olhar crítico esqueceu-se de julgar a si mesmo e colocar-se em seu lugar, e, como ironia presenteada como vingança pela própria eternidade, um dia todo seu mundo e seu julgamento caíram.

As deusas das tílias fizeram cair as flores de toda a alameda naquele dia. A eternidade, a princesa do além-tempo, que jamais poderia entrar nos reinos do príncipe tempo, enviou seu carro carregado com aquilo que faria cair a torre onde se passava o julgamento de Tílio. Ali estava sua morte, não veio para arrebatá-lo, mas para domar sua alma, para enforcar sua arrogância e vê-la perdida entre o sol e a lua, fazer brilhar uma nova estrela na alameda dos loucos, dos pioneiros e dos amantes. Tílio, o príncipe do mundo, se perderia no seu lugar de fantasias e excessos, tornaria-se um andarilho perdido, vivendo pela sorte num mundo de sombras e, ali, de olhos vendados, encontraria de novo seu equilíbrio ou cairia na loucura, para nunca mais voltar.

Uma criança se aproximou, e um cachorro, pequeno e tão doce… pareciam dois seres do outro mundo, indo levar notícias e mensagens a um grande homem. Tílio não resmungou. Vinham em sua direção e isso o excitou, o extasiou: enfim companhia.

O cachorro tomou a frente, ele era branco e suas orelhas amarelas, só elas não eram brancas naquele animal que dançava, não corria.

Ele cheirou os pés de Tílio, abanava o rabo. Ele o notou!

Ah! Como era bom ser notado, ser percebido e… até parecia que ele o amava, abanando o rabo daquela forma. Levantou os olhos para o alto, para ver Tílio inteiro! Sua felicidade foi tamanha que sentiu como se seu coração se derretesse… e sentiu mesmo seus pés úmidos…

– Beni! Não faça xixi nas árvores! – o garoto gritou, era para o cachorro. Tílio arrepiou. O véu estava escuro, ia chover forte, mas o sol aparecia, baixo, perto do horizonte, caindo lentamente para se pôr, irradiando uma luz cruel e mórbida, sarcástica… mostrando a Tílio a urina do cachorro, que brilhava em seus pés.

Não faça xixi nas árvores! Mas o cão urinou nele! Tílio teve medo. O garoto passou reto sem nem lhe pedir desculpas, o cachorro continuou correndo pela alameda depois disso. Ele não conseguia se abaixar para se limpar. O vento do entardecer fez cair mais folhas perto dele. Mais do que nunca elas o irritaram, mas não conseguiu resmungar, as pessoas passavam por ele e nem mesmo o olhavam…elas costumavam observar e rir às escondidas quando alguém passava molhado ali… mas não dele – e não era respeito: era indiferença. Nem viam graça nem indignação, mal olhavam… aquilo lhes era natural.

Tentou pedir ajuda mas o ignoravam.

Então começou a pensar, sobre como as coisas mudaram. Lembrou-se quando era um respeitado homem em sua vizinhança…e lembrou-se que teve família um dia, mas não se lembrava que fim ela teve.

Buscou em sua memória, mas nada encontrou, por toda aquela noite… perdeu-se no tempo, de novo, e ao amanhecer viu uma movimentação estranha na rua: bombeiros com serras para cortar árvores preparavam-se para cortar alguma tília. Ficou realmente feliz com isso, uma dessas árvores-despenca-folhas a menos para lhe importunar. Mas só cortavam árvores doentes, ele sabia reconhecer uma – não encontrou nenhuma. As serras forma ligadas, o perímetro de segurança montado. Começaram a lhe cortar.

Tílio se lembrou.

Sua família vivia bem. Seu filho trabalhava e sua esposa era uma boa avó que fazia doces aos fins de semana, às vezes sentia falta dele, mas vivia bem. Ele teve problemas no coração há muito tempo e foi internado num hospital, morreu.

Viu então como as pessoas se vestiam diferentes, como o mundo era outro e os anos se passaram. Ele renasceu como árvore…e só se deu conta disso quando o matavam de novo.

Só tinha um lasco de tempo até cair na eternidade de novo, entre os mortos, só tinha este tempo para ver o mundo como árvore. Sua arrogância o cegou antes e nunca admitiu sua condição.

O primeiro galho caiu…

3 comentários para “A Tília”

  1. Thiago Machbrew Machado diz:

    Eu tive o prazer de ler este texto ano passado, eu acredito. Tanto tempo passou e ainda gosto e me identifico comessas linhas.

    Bravo, bravo, meu amigo.

  2. ph diz:

    belo texto! =P
    extraio da leitura:
    arrogância é não (saber) sentir.

    e como faço (pra saber)?
    acho que criei raízes…

  3. Cadu Garcia diz:

    […] num dos arcanos maiores, é uma idéia bem interessante, e eu cheguei a usar, quando escrevi A Tília usando três cartas que tirei do tarot de arcanos maiores que vêm com o […]

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