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May 2008

Carta a Ninguém (ou a Todos que Moram no Mundo Dentro de Mim) I

Criar faz a gente entender mais de si e daquilo que nos rodeia. Acaba sendo um reflexo, enfeitado, rebuscado e idealizado, do que vemos, não da realidade. E criar nos daz perceber o quanto a realidade em si é subjetiva.

Escrever, criar um mundo de fantasia – nem sempre um mundo tão diferente do que vivemos – faz a vida ter outro sentido. As loucuras ficam menos estranhas, entender é mais fácil. Talvez a única coisa que mude é a forma como encaramos tudo, é a nossa realidade, e talvez ninguém mais note a diferença.

Já não é segredo, caro ninguém, que eu crio um mundo fantasioso, brinco com a realidade e a percepção: escrevo contos, pequenos e grandes.

E como reflexo, mesmo que maquiado, o que se escreve é uma forma de exposição, do mais íntimo, do mais sombrio, do mais luminoso também, de quem cria. Sendo exposição de qualquer forma  – e sendo uma única obra é difícil dar volume e cor à tudo, é difícil que qualquer narrador possa contar algo que não viu, que não interpretou, assim, meus contos são interpretações minhas de uma realidade que pude contemplar, e é arrogante dizer que tudo veio de minha imaginação, de meu raciocínio, e exclusivamente meu. Mesmo a fantasia acontece entre os fios da realidade, e meus contos são minha interpretação, meu ponto de vista, minha fotografia meu retrato. – e como eu dizia, sendo exposição de qualquer forma, que eu ofereça uma outra visão do que crio, mesmo ainda não tendo mostrato ao grande público a criação em si.

Sempre me diverti com a idéia de trindade, não só a cristã, mas o conceito em si. Do Tao que diz que do um vem o dois, e dois se tornam três e três em dez mil (e dez mil é uma alusão ao que o ocidental chama de infinito, mas acredito ser mais poético chamar de incontável). A idéia de um deus criador, um mantenedor e um destruidor. Ou, o deus individual, a sua manifestação e sua centelha em todos criados.

Mas na minha história eu precisei de cinco, não três. E são cinco porque um é antes de qualquer divisão e depois da fusão, se houver, e outro é o que restou, é a loucura que qualquer indíviduo recusa solenemente (fosse de outra forma já seria considerado louco).

Cinco, um deles sou eu, mas ele é a tangente da história. No começo era ele, e ele não tinha o que fazer. Um vento de inspiração se apossou dele, o vento do espírito daquele tempo, o Zeitgeist da fantasia que eu vislumbrei. E como disse o lendário Lao Tsé, de dois necessariamente vem três. E também é a lei da Dialética: tese e antítese se unem formando a síntese.

Do um, que se tornou dois, vieram mais.

Ele se divide em quatro. Como são quatro as fases da lua (mas a lua sempre é representada com tríplice face). Como são quatro as idades dos homens: a infância, a maturidade, a velhice e a morte. São quatro estações.

São quatro, cada um nascendo à sua vez e sendo dotado das qualidades do primeiro.

A primeira herdou a sabedoria sobre o mundo em que vive (o da fantasia criada), sobre os tempos (Passado, Presente, Futuro e o outro), sobre os planos da existência (o Ctônico, o Superficial, o Celeste e o outro), ela sabe tanto que fecha os olhos para tudo. É dada como cega por ver demais, como os videntes gregos (na verdade os cegos eram considerados muito sábios e possuidores de conhecimentos ocultos). Seu nome veio de um trocadilho idiota que uma vez falei pra um cachorro, enquanto o alimentava. E é a personagem mais antiga que eu criei, em torno dela surgiu o mundo, e em torno do mundo a minha vida gira. Ela é uma deusa pessoal, mas é criação minha. Sua imagem é inspirada na história de uma letra do alfabeto e na forma como eu a escrevia quando a criei. Ela instiga o universo e sempre começa as histórias.

Ao segundo – não segundo personagem, mas segundo na destilação do que é todos – veio a sedução, a imagem de inocência, a perversidade, o instinto de auto-preservação superando qualquer outro valor, mas ele sabe que para se preservar precisa preservar o mundo em que vive, precisa manter a ordem ou saber viver no caos. É o mais covarde, mas o mais belo e ardiloso dos covardes.

O terceiro é guerreiro, cruel, terrível, monstruoso, destruidor. É inimigo de seus irmãos de alma, é sozinho também, e não teme a própria destruição. Odeia a primeira, deseja destruí-la, mas nunca consegue encontrá-la. Os dois provavelmente se aniquilarão no fim do mundo.

O quarto é a escória, é ignorado pelos três, é a sombra de tudo, é a sobra do que os três não aceitaram. É a loucura. É a insanidade. Ele se esconde até da noite, mas onde anda deixa um rastro. Não é real, não é material ou espiritual, é apenas o que sobrou, e por isso será a vestimenta do segundo depois que ele beber a mistura do sangue dos outros dois. Mas isso só pode se passar no quarto espaço, no quarto tempo, no ponto onde tudo começou, onde tudo era nada.

Mas ainda existem outras formas da trindade a se brincar, ainda existem outras formas de brincar de realidade na fantasia… e sobre elas eu conto depois.

7 comentários para “Carta a Ninguém (ou a Todos que Moram no Mundo Dentro de Mim) I”

  1. Fillipe diz:

    Sabe um lago de superfície calma, tão espelhada e quieta que parece sólida? Mas que, na verdade, esconde um lago tão profundo quanto um abismo e naum passa de um véu abstrato e escorregadio, ou mesmo, uma louca armadilha? Sabe?

    Eh isso.

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