19

Nov 2008

Adaptações

Quando eu comecei a escrever imaginava editoras e o mercado como um vilão, destruindo a criatividade, mutilando a obra e enxertando imagens inapropriadas com o que idealizei.

Quando comecei a trabalhar como designer passei pela mesma situação. Mas logo percebi que insistir nessa idéia seria investir num stress e numa doença posteriores.

Mas a postura continua por aí, eu sempre vejo. E eu acredito que essa flexibilidade tem muita ligação com o meu post anterior.

Semana passada comecei a ver uma série nova da Warner, inédita no Brasil, chamada Merlin – indicação do Fake. No orkut algumas pessoas reclamam que o roteiro da série não é fiel à “verdadeira história” do Rei Arthur. Não vou me extender dizendo que não existe uma “verdadeira história” e sim várias versões, como é comum em qualquer mitologia, ainda mais na celta.

Um problema parecido veio quando lançaram O Senhor dos Anéis no cinema, apesar de não tão diferente à história original do livro.

E quantas outras adaptações passaram por isso? Beowulf recentemente, por exemplo.

A versão mais antiga de Beowulf é do ano 1000 da Era Comum (ou Cristã), escrito em antigo inglês, provavelmente copiada por monges, e cheia de “enxertos” e “adaptações” cristãs ao que se supõe ser a história original, pagã. O filme é só mais uma das adaptações em cima da história, tirando a visão cristã. Outras fantasiam sobre isso.

As áreas da literatura e do design têm algo em comum: a criação. E apesar de eu não ser um escritor profissional já experimentei e estudei um pouco do que é “escrever”. E como qualquer profissional, não se trabalha somente pela arte, mas se têm em vista o mercado – e o mercado é feito de pessoas que compram sua idéia se se sentirem tocadas, se houver comunicação com o “mundo interior” delas, com seus valores, princípios e emoções, incluindo o medo e o desejo.

Exemplo prático: um dia na agência que trabalhei desenvolvi uma peça com fundo escuro. Ficou linda, mas o cliente pediu para deixar o fundo branco, eu resmunguei, mas mudei a cor do fundo, os efeitos que tinham ficado bons para o fundo escuro ficaram terríveis no fundo branco, então eu refiz todos os efeitos e suavizei. Mantive a “alma” da peça, mas clareei. Eu já vi gente simplesmente mandando o fundo de cor trocada e reclamando que o cliente destruiu a peça, faltou tato, na minha opinião.

Acontece isso com adaptações para o cinema, para o teatro, para qualquer coisa! A alma não está nas formas ou nas cores, nas palavras. Beowulf foi adaptado para os tempos cristãos e se manteve. Senhor dos Anéis teve que ser passado para a linguagem do cinema, algo teve que ser cortado ou refeito. A alma da criação é o efeito que se espera nas pessoas, como ele é feito é irrelevante.

E voltando ao Merlin, a série não pretende reconstruir a história de Arthur, é uma criação nova, para um público diferente, e obviamente toda a história mudou, foi uma adaptação, absolutamente não fiel ao original, mas eu estou gostando do que vi, me entretem.

18

Nov 2008

Mundos Interiores

Quem quer tira uma lição a cada nova situação, e quem quer é a cada dia uma pessoa melhor. Quem não quer simplesmente se fecha e vive sua vida de cabeça dura, mas nem sempre se dando mal. Eu mudo, e mudo pelo prazer de mudar, nada mais, não preciso de porquês ou motivos. Quando a gente se abre para a mudança o mundo nos sorri e nos ensina.

E aquela idéia do nosso “mundo interior“, que eu sempre imaginei, mas foi o Anam Cara (livro de John O’Donohue) que me fez chamar assim, e hoje já encontro em outros lugares sendo chamado pelo mesmo nome, que me fascinou, e o fascínio me levou à exploração.

Li um tempo atrás um livro de Seiðr, conhecido como “shamanismo” nórdico, e uma reconstrução da técnica por um grupo americano, usam a técnica com finalidade oracular. No Seiðr o praticante coloca parte de sua alma para viajar pelos nove mundos da cosmologia nórdica. Diz-se que as perguntas são respondidas tão claramente como foram claras e fortes as suas emoções ao perguntar.

Isso me levou a outra situação. Passei por uma dificuldade, era uma situação “boba”, mas para mim era importante, era algo que me tocava. Mas era bobo e eu não quis pedir por isso nas minhas conversas com os deuses, no caso com Freyja (e talvez alguém que leia chame de oração…) Eu senti uma bronca vindo do lado de lá, senti “se isso é importante para você, se suas emoções são sinceras, não pode ser bobo, não pode não ter valor”, e eu pedi então.

Essa emoção faz parte do mundo interior que todos nós temos, faz parte da própria moral, da ética e dos nossos sonhos, dos nossos objetivos, do nosso sagrado. E cada um tem seu sagrado, seu templo ou altar interior. Nossos sonhos são nosso sagrado, e eles moldam a nossa realidade, moldam nossas atitudes e emoções tidas como ruins são sinais que algo está errado com isso, que algo está violando esse espaço.

E de tudo isso eu tirei a lição de respeitar o mundo interior alheio, todas as pessoas têm seu mundo, e não é pequeno! Como se muitos planos se sobrepusessem, como se cada um fosse uma folha transparente e manifesta para o outro algo de seu mundo através de linhas e desenhos. Os mundos sobrepostos formam uma imagem só. Pensar assim me fez ver as pessoas por outra ótica, mais humana. Faz a gente se colocar no lugar do outro antes de dizer “a culpa não foi minha”, “desculpa”, “eu não quis isso”, “que nojo”, “vai com calma” e outras tantas coisas. Faz a gente perceber que a gente pode fazer o dia de alguém feliz se souber o momento de sorrir, faz a gente perceber que pode destruir os sonhos de alguém com uma frase errada.

Quando eu admiti que não só eu tenho um mundo interior saí do centro da minha existência, viver ficou mais leve. Deixei de ser um “Atlas” e de carregar o céu nos ombros.

E isso é parte do meu aprendizado pelo que já passou da Primavera.

PS: Curiosamente, este fim de semana fiz um workshop de roteiro fantástico com o Raphael Draccon e ele também usou o termo de mundo interior como fonte das linguagens pessoais dos autores em filmes e roteiros, entre os exemplos que ele deu estão Tarantino, André Vianco e Stephen King. Vendo uma cena de um filme você sabe quem a escreveu.

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